Em 24 de junho de 2008 meu pai
perdeu a batalha contra o coração. Desde novo sabia do problema coronário que
um dia o levaria a morte. Mas não se deu nunca por vencido. Pelo contrário,
lutou até o fim. Sempre buscou por uma vida saudável. Alimentou-se bem,
praticou muitas caminhadas. Responsável marido e pai, começou a trabalhar na
juventude, tão logo voltou do colégio interno, o Caraça.
De inteligência invejável, obteve
três graduações: Ciências Contábeis, Economia e Administração, todas na
PUCMINAS. Dentre os diversos trabalhos, foi professor de um curso técnico em
Contabilidade, Fiscal do Ministério do Trabalho. Aposentou-se como Auditor
Fiscal do INSS.
Ao longo da vida, procurou
vive-la da melhor forma possível. Em todas as férias viajou. Conheceu, ao lado
da minha mãe, do sul ao nordeste do Brasil, viajando ora de avião, ora de
ônibus ou carro. Até pequenas viagens de trem fez.
No entanto, o problema coronário
o derrubou. Teve diversos AVC’s. Por eles, perdeu a memória atual, mantendo a
antiga. Durante a Copa do Mundo de Futebol de 2006 pudemos vê-lo, ainda que
trocasse palavras como geladeira e janela, cantando a Mareselhesa, hino da França,
executado antes de uma partida de futebol daquele país.
Ao falecer, seu coração estava do
tamanho de um prato, graças a uma triste deficiência: ao bater, não voltava
para o lugar. No entanto, deixou-nos grandes lições.
No último dia 03 de outubro de
2016, às 0:20h Jair Miguel, meu sogro, faleceu dormindo, depois de uma parada
cardíaca.
Pai e marido exemplar, nascido no
interior de Minas Gerais, começou a trabalhar ainda quando criança com o pai no
comércio de Ariranha. Em Belo Horizonte, em 1968 iniciou seu trabalho como
taxista, profissão que exerceu até o último dia de vida.
Como pude saber dele, além da
minha esposa e familiares, lutou bastante para dar uma excelente educação aos
filhos, conseguiu a duras penas. As consequências são vistas hoje a olhos
largos. Um filho diretor executivo de uma indústria em Contagem, Minas Gerais,
e uma filha gerente de uma indústria de cosméticos em Guarapari, Espírito
Santo.
Em função do trabalho, a quem
dedicou a maior parte de sua vida, levou uma vida metódica. Diariamente
acordava cerca das 4:30h da madrugada, alimentava-se e ia pra rua. Almoçava
sempre em casa e retornava ao trabalho. Ao final do dia, antes de chegar em
casa, limpava seu material de trabalho: o carro. Apenas descansava aos sábados,
quando “o movimento da praça era fraco”, como costumava dizer. Neste dia ficava
em casa, ou visitava os netos, ou ainda ia ao clube, onde curtia uma sauna.
Quando mudei de Belo Horizonte para Guarapari, esporadicamente nos visitava nos
finais de semana. Nunca estendia o passeio, pois “precisava” voltar ao
trabalho. E isto ocorreu mesmo depois de aposentado.
No dia 02 de outubro de 2016 não
foi diferente. Trabalhou o dia todo – como sempre fazia – e, ao final do dia,
cortou os cabelos, chegou em casa, fez a barba, a higiene pessoal,
alimentou-se, dormiu e faleceu.
Estou casado há dezesseis anos.
Se minha esposa for perguntada sobre um dos melhores momentos que passamos
juntos, certamente ela dirá: “A viagem que fizemos a Sergipe”. De fato, foi um
de nossos melhores momentos. Em poucos dias tivemos uma maravilhosa
oportunidade que conhecer aquele pequeno e acolhedor estado. Visitamos seus
principais pontos turísticos. Não somos ricos mas, com nossas economias,
fizemos uma maravilhosa viagem.
Embora as três pessoas apresentadas
aqui pareçam desconexas, delas aprendi algo fundamental: “TRABALHO PARA VIVER,
NÃO VIVO PARA TRABALHAR”.
Do meu pai, da mesma forma que
meu sogro, aprendi que devo ser responsável, seja com a família, seja com o
trabalho. A labuta diária é importantíssima, pois ela nos enobrece, além, é
claro, de ser o nosso meio de sustento. Com ambos aprendi que a família é o
fundamento do nosso viver. Ali está o nosso porto seguro e nosso norte. De
ambos ainda aprendi que devo me dedicar à família, pois ela o seio da
sociedade.
Entretanto, meu pai e meu sogro
tinham visões distintas da vida. O primeiro via o trabalho como meio de
subsistência para viver bem. O segundo via o centro central da vida para suster
todo o resto.
Quem viveu a forma correta: meu
pai ou meu sogro?
Meu pai.
Sei que se trata de situações
distintas, vidas diferentes, realidades financeiras diversas. No entanto, mesmo
quando meu pai ainda não tinha a realidade financeira que alcançou no fim da
vida, nunca deixou de se divertir. Lembro-me de quando tínhamos uma situação
financeira difícil. Naquele tempo (eu ainda era criança) viajávamos para
Vitória –Espírito Santo – e hospedávamos na casa da prima da minha mãe, numa
favela. Ou seja, sempre passeávamos.
Desde novo tomei gosto, com meu
pai, em conhecer lugares. Casado, com minha esposa fizemos viagem religiosa
(Canção Nova em Cachoeira Paulista – SP), Circuito das Águas em Minas Gerais
(São Lourenço, Caxambu, São João Del Rey, Tiradentes, etc.), Rio Grande do
Norte, Paraíba, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, além de desejarmos
conhecer Pernambuco.
Estamos vivendo de forma
“errada”? Um grandissíssimo NÃO. Somos responsáveis. Ela gerencia uma fábrica e
sou professor. Ambos temos uma vida religiosa ativa. Cantamos e tocamos nas
missas, além de eu ensinar flauta doce na paróquia. Ajudamos os irmãos de rua.
Vivemos na humildade, sem exageros. Mas não nos abdicamos da diversão.
Nos finais de semana sempre vamos
a Vila Velha ou Vitória. Raramente ficamos em casa (Guarapari).
Recentemente fui convidado a participar
de um Moto Clube: Os Leviatãs.
Uma colega de trabalho me
demonizou: “Leviatã é o demônio na Bíblia. Como você pode participar disto?”
Coitada. Mal sabe ela que Leviatã é um mostro mitológico marinho. Não um
demônio. Demônio é o que ela quis ver. Enquanto ela vê diabos, eu vejo o
monstro dos mares, aquele ser mitológico que respeita seu habitat (o mar), mas
está sempre navegando pelos sete mares, ou seja, está solto no mundo. Este é o
Leviatã que acredito. Este é o Leviatã que me sinto. Um ser que respeita o
mundo que vive mas, sobre duas rodas, pode conhecer todo ele.
Minha esposa desde o início
aceitou o fato de eu participar de um grupo que quer desbravar o muno sobre
duas rodas. Não me proíbe. Pelo contrário, me apóia, pois aba que eu jamais vou
abandoná-la. Pelo contrário, sempre que posso, quero levá-la ao meu lado.
Afinal, quero viver. Trabalhar
para viver. Curtir a vida com responsabilidade, sem moderação. Vivê-la
intensamente, cada instante como se fosse o último. Ser um feliz leviatã num vasto
mundo.
Isto foi o que aprendi com a morte.
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