domingo, 23 de outubro de 2016

O que aprendi com a morte

Em 24 de junho de 2008 meu pai perdeu a batalha contra o coração. Desde novo sabia do problema coronário que um dia o levaria a morte. Mas não se deu nunca por vencido. Pelo contrário, lutou até o fim. Sempre buscou por uma vida saudável. Alimentou-se bem, praticou muitas caminhadas. Responsável marido e pai, começou a trabalhar na juventude, tão logo voltou do colégio interno, o Caraça.
De inteligência invejável, obteve três graduações: Ciências Contábeis, Economia e Administração, todas na PUCMINAS. Dentre os diversos trabalhos, foi professor de um curso técnico em Contabilidade, Fiscal do Ministério do Trabalho. Aposentou-se como Auditor Fiscal do INSS.
Ao longo da vida, procurou vive-la da melhor forma possível. Em todas as férias viajou. Conheceu, ao lado da minha mãe, do sul ao nordeste do Brasil, viajando ora de avião, ora de ônibus ou carro. Até pequenas viagens de trem fez.
No entanto, o problema coronário o derrubou. Teve diversos AVC’s. Por eles, perdeu a memória atual, mantendo a antiga. Durante a Copa do Mundo de Futebol de 2006 pudemos vê-lo, ainda que trocasse palavras como geladeira e janela, cantando a Mareselhesa, hino da França, executado antes de uma partida de futebol daquele país.
Ao falecer, seu coração estava do tamanho de um prato, graças a uma triste deficiência: ao bater, não voltava para o lugar. No entanto, deixou-nos grandes lições.
No último dia 03 de outubro de 2016, às 0:20h Jair Miguel, meu sogro, faleceu dormindo, depois de uma parada cardíaca.
Pai e marido exemplar, nascido no interior de Minas Gerais, começou a trabalhar ainda quando criança com o pai no comércio de Ariranha. Em Belo Horizonte, em 1968 iniciou seu trabalho como taxista, profissão que exerceu até o último dia de vida.
Como pude saber dele, além da minha esposa e familiares, lutou bastante para dar uma excelente educação aos filhos, conseguiu a duras penas. As consequências são vistas hoje a olhos largos. Um filho diretor executivo de uma indústria em Contagem, Minas Gerais, e uma filha gerente de uma indústria de cosméticos em Guarapari, Espírito Santo.
Em função do trabalho, a quem dedicou a maior parte de sua vida, levou uma vida metódica. Diariamente acordava cerca das 4:30h da madrugada, alimentava-se e ia pra rua. Almoçava sempre em casa e retornava ao trabalho. Ao final do dia, antes de chegar em casa, limpava seu material de trabalho: o carro. Apenas descansava aos sábados, quando “o movimento da praça era fraco”, como costumava dizer. Neste dia ficava em casa, ou visitava os netos, ou ainda ia ao clube, onde curtia uma sauna. Quando mudei de Belo Horizonte para Guarapari, esporadicamente nos visitava nos finais de semana. Nunca estendia o passeio, pois “precisava” voltar ao trabalho. E isto ocorreu mesmo depois de aposentado.
No dia 02 de outubro de 2016 não foi diferente. Trabalhou o dia todo – como sempre fazia – e, ao final do dia, cortou os cabelos, chegou em casa, fez a barba, a higiene pessoal, alimentou-se, dormiu e faleceu.
Estou casado há dezesseis anos. Se minha esposa for perguntada sobre um dos melhores momentos que passamos juntos, certamente ela dirá: “A viagem que fizemos a Sergipe”. De fato, foi um de nossos melhores momentos. Em poucos dias tivemos uma maravilhosa oportunidade que conhecer aquele pequeno e acolhedor estado. Visitamos seus principais pontos turísticos. Não somos ricos mas, com nossas economias, fizemos uma maravilhosa viagem.
Embora as três pessoas apresentadas aqui pareçam desconexas, delas aprendi algo fundamental: “TRABALHO PARA VIVER, NÃO VIVO PARA TRABALHAR”.
Do meu pai, da mesma forma que meu sogro, aprendi que devo ser responsável, seja com a família, seja com o trabalho. A labuta diária é importantíssima, pois ela nos enobrece, além, é claro, de ser o nosso meio de sustento. Com ambos aprendi que a família é o fundamento do nosso viver. Ali está o nosso porto seguro e nosso norte. De ambos ainda aprendi que devo me dedicar à família, pois ela o seio da sociedade.
Entretanto, meu pai e meu sogro tinham visões distintas da vida. O primeiro via o trabalho como meio de subsistência para viver bem. O segundo via o centro central da vida para suster todo o resto.
Quem viveu a forma correta: meu pai ou meu sogro?
Meu pai.
Sei que se trata de situações distintas, vidas diferentes, realidades financeiras diversas. No entanto, mesmo quando meu pai ainda não tinha a realidade financeira que alcançou no fim da vida, nunca deixou de se divertir. Lembro-me de quando tínhamos uma situação financeira difícil. Naquele tempo (eu ainda era criança) viajávamos para Vitória –Espírito Santo – e hospedávamos na casa da prima da minha mãe, numa favela. Ou seja, sempre passeávamos.
Desde novo tomei gosto, com meu pai, em conhecer lugares. Casado, com minha esposa fizemos viagem religiosa (Canção Nova em Cachoeira Paulista – SP), Circuito das Águas em Minas Gerais (São Lourenço, Caxambu, São João Del Rey, Tiradentes, etc.), Rio Grande do Norte, Paraíba, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, além de desejarmos conhecer Pernambuco.
Estamos vivendo de forma “errada”? Um grandissíssimo NÃO. Somos responsáveis. Ela gerencia uma fábrica e sou professor. Ambos temos uma vida religiosa ativa. Cantamos e tocamos nas missas, além de eu ensinar flauta doce na paróquia. Ajudamos os irmãos de rua. Vivemos na humildade, sem exageros. Mas não nos abdicamos da diversão.
Nos finais de semana sempre vamos a Vila Velha ou Vitória. Raramente ficamos em casa (Guarapari).
Recentemente fui convidado a participar de um Moto Clube: Os Leviatãs.
Uma colega de trabalho me demonizou: “Leviatã é o demônio na Bíblia. Como você pode participar disto?” Coitada. Mal sabe ela que Leviatã é um mostro mitológico marinho. Não um demônio. Demônio é o que ela quis ver. Enquanto ela vê diabos, eu vejo o monstro dos mares, aquele ser mitológico que respeita seu habitat (o mar), mas está sempre navegando pelos sete mares, ou seja, está solto no mundo. Este é o Leviatã que acredito. Este é o Leviatã que me sinto. Um ser que respeita o mundo que vive mas, sobre duas rodas, pode conhecer todo ele.
Minha esposa desde o início aceitou o fato de eu participar de um grupo que quer desbravar o muno sobre duas rodas. Não me proíbe. Pelo contrário, me apóia, pois aba que eu jamais vou abandoná-la. Pelo contrário, sempre que posso, quero levá-la ao meu lado.
Afinal, quero viver. Trabalhar para viver. Curtir a vida com responsabilidade, sem moderação. Vivê-la intensamente, cada instante como se fosse o último. Ser um feliz leviatã num vasto mundo.
Isto foi o que aprendi com a morte.

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